domingo, 12 de fevereiro de 2012

Amor e paixão

Como qualquer mortal e amante do jogo da bola, na vida existe um amor incondicional e existem aquelas paixões momentâneas que depois se tornam em gostos permanentes. O amor da minha vida tem os tons rubros do manto sagrado, que aprendi a gostar, quando o meu avô me levou ao Restelo em 1986 para ver Michael Maniche derrotar o Belenenses. Final de jogo e a bandeira (com pau de madeira) comprada para ficar lá em casa e para a carregar, sempre que o Glorioso jogava.

O baptismo na Luz deu-se em dia de casa cheia, frente ao Steaua de Bucareste, para a meia-final da Taça dos Clubes Campeões Europeus (nome religiosamente guardado para qualquer benfiquista que se preze, afinal temos duas) com cerca de 120 mil almas que elevaram a velhinha Luz quase ao Olimpo. Dois anos depois, tive a minha estreia no palco mágico das emoções, porque a vida não era fácil para os meus, o que de certa forma, espelhava a condição do benfiquismo da altura: força, preseverança, mística, vontade. E foi essa vontade, aliada a tudo o resto, que nos possibilitou estar em duas finais (mais duas, depois dos anos 60) da mais importante prova de clubes a nível europeu.

A rotina melhorou nos anos 90. Mais independente (ligeiramente), a ida à Luz era o ritual, para ver os artistas a pisarem aquele relvado, a deliciarem-nos com o seu trabalho, com a sua qualidade, com a sua classe. E aí, deu para ver do melhor, ali, bem pertinho do relvado, antes da ideia atroz de se construir um fosso que separava os acólitos dos seus deuses. E antes dessa terrível transformação, começaram a vir as paixões. O amor tinha, e tem, os nomes dos brilhantes jogadores que tiveram a honra de dignificar a camisola do Sport Lisboa e Benfica desde 1986 (altura em que os comecei a ver ao vivo - e que são tantos, que era preciso um novo post para os colocar a todos, alinhados, de uma baliza à outra do estádio, para fazerem a tradicional "vénia" a que nós nos acostumámos a ver, e que foi reactivada no primeiro ano de Jorge Jesus).

Como estava a dizer, as paixões começaram a surgir. Em 1991, o Dream Team de Barcelona, com Stoichkov, Laudrup e Koeman, treinada por Johan Cruijff, onde Pep Guardiola aprendeu o que hoje é uma das melhores equipas que já vi alguma vez jogar. A de 1991 era parecida, e quando Stoichkov andava ali, junto à rede, a partir os rins ao Paneira, apaixonei-me de imediato por aquele futebol rápido, pensado, bonito e eficaz.

Depois veio o Ajax e Van Gaal. A equipa dos miúdos, aliada à sua históra e estratégia para as camadas jovens, conseguiu criar uma equipa extraordnária com Litmanen, Kluivert, Davids, Seedorf, Rijkaard e Van der Saar, que possibilitou ao comum adepto do futebol ficar satisfeito com tamanha qualidade.

E ainda há a paixão pelo tango. A Argentina, país das pampas e de D10S. E se há alguma força extra-territorial, é lá que se encontra, porque é impressionante a qualidade que por lá existe e que nos consegue colocar apaixonados pela cultura futebolística, pelo pensamento e sua maneira de executar, pela forma tão simples de olharmos para o jogo como uma arte, apenas alcançável pelos verdadeiros artistas. E aí, aparece o River Plate. E aparecem dois "chicos", que pela sua fisionomia, seriam certamente afastados por algum treinador de formação energúmeno que privilegia a componente física à mental. E essa parte, fundamental no processo de crescimento, é a principal diferença que, no decorrer de um jogo, permite aos artistas pintarem os quadros dos melhores momentos dentro de um campo de futebol.

E aí entram duas pessoas: Pablo Giordano Aimar e Javier Pedro Saviola. Juntos, com a diferença etária de dois anos, pintaram alguns dos melhores quadros que "la cancha" viu criar. Juntos, eram, na altura, o que de melhor se poderia ver, e com isso, ganhava o futebol, ganhava o River e ganhávamos nós, os adeptos da arte moderna do jogo da bola.

Depois, cada um seguiu o seu rumo até se encontrarem na antiga capital do Império, prontos para continuarem a pintar mais quadros de antologia. Eu lembro-me do primeiro ano de Pablo em Lisboa. Um determinado espanhol, que com a mania de saber, optava por não lhe dar o espaço que merecia. E com isso, foi criticado, quer o espanhol, quer Aimar. A camisola 10 que o Manuel Rui lhe deixou tinha um encargo maior do que qualquer outro número 10 que lha tivesse passado. A exigência era enorme. E a figura franzina era várias vezes ostracizada por isso. Ele e Javier Pedro, seu companheiro de luta, na Argentina e em Portugal. Sempre a mesma exigência para com eles que não há com outros.

Mas eles, sempre profissionais, sempre como eles foram, tiveram de "conquistar" quem não acreditava neles. E ainda foram muitos.

Neste último mês e meio, decidiram ficar por cá mais um ano. Até 2013. Continuaremos a disfrutar das obras de arte que os dois nos acostumaram a dar. As paixões aliadas ao amor. Como eu me sinto feliz! Como eu me sinto "encantado" e "ilusionado", como Aimar referiu a semana passada, "ilusionado" por continuar a fazer aquilo que ele mais gosta. E como nós gostamos de gostar que ele goste de fazer o que mais gosta. A ele e ao Javier, o meu obrigado por dignificarem sempre a camisola que vos fica tão bem.

E depois da vossa missão em Lisboa, que regressem à vossa paixão de sempre: ao River do vosso coração! E nessa altura, o mínimo exigido será uma salva de palmas estonteante e prolongada e um muito obrigado por nos terem dado tantas obras de arte dignas dos melhores de sempre.

1 comentário:

L. disse...

a minha primeira ida foi com o Belenenses. Mas em 84-85. Ano mau, mas esse jogo ganhámos por 4-1... e andava lá o Manniche.