Não sei se será da idade mas fico saudoso das noites europeias, do Benfica dos anos 80 onde podíamos perder por 10 fora e acreditávamos sempre poder passar. Obviamente perder por 10 torna a história uma pouco irrealista, mas o ambiente, a atmosfera, os autocarros vindos dos vários recantos do Portugal profundo parados no parque de areia junto ao antigo pavilhão, os encontros de amigos no Ponto Vermelho, demonstrava tudo aquilo pelo qual o mundo parava e só se respirava Benfica.
Tínhamos a convicção que o ambiente iria ser aterrador para quem vinha à Luz, por isso me faz confusão que os mais novos já não se lembram porque razão lhe chamávamos o
INFERNO DA LUZ .
Tínhamos a sensação que países como a Grécia e Turquia têm hoje em noites europeias, estádio a abarrotar, euforia total, ambiente hostil para quem vem jogar, nos dias de hoje apenas mostra as noites frias de um ambiente estranho mas idêntico ao que senti quando visitei o CAMP NOU pela primeira vez em 99.
Estava de visita a Barcelona onde tive a oportunidade de ver um Barcelona-Numância para o campeonato, num estádio em muito idêntico ao do Benfica a gelar lá bem alto como se no 3º Anel da Luz me encontrasse, e qual não foi o meu espanto quando cerca de 50 mil pessoas se ouvia menos que 5 portugueses de gargantas afinadas que um estádio cheio de catalães numa exibição rasca ao nível de um jogo da Liga Vitalis, bem parecido com o que se ouviu ontem na luz por apenas 5 mil.
Eu que por momentos pensei que o ambiente de barcelona naquela noite de outono era frio percebi que afinal seria apenas que era o calor dos adeptos demasiado fraco para criar atmosfera onde não houve temperatura, onde o tempo e o mundo pudesse parar não permitindo que a voz parasse de exaustão antes do apito final como muitas noites senti no saudoso
INFERNO.
Apenas parecido na
arquitectura de anos longínquos, mas em quase nada igual, pois podiam dar-se ao luxo de não ter publicidade nas camisolas, podiam dar-se ao luxo de ter equipas gigantes e milionárias, mas não tinham a fusão de um só (jogadores e adeptos) , a vibração e exaltação, euforia total e o ambiente hostil que muitas equipas receavam na luz, tinham medo do nosso saudoso
INFERNO.
Por isso a culpa não não pode morrer solteira e como se de um casal fossemos (clube e adeptos) quando a relação anda agreste devemos pensar numa coisa, que também somos culpados por não demonstrar o nosso apoio, e criar um ambiente em casa (seja em que lugar da tabela estivermos) que nos seja confortavél, para nós e para os jogadores, que possamos dar-lhe vida e alma e voltar a acender a chama de uma relação umbilicalmente ligada até deixarmos de existir.
Por isso se pretendemos ganhar e exigir dos jogadores devemos primeiro olhar para o umbigo e ver o quanto errados estamos, para nos 90 minutos que nos encontramos em solo sagrado esquecer tudo e todos e gritar bem mais alto do que uns miseráveis 5 mil alemães, para podermos sair aliviamos de que cumprimos o nosso dever e não apenas considerar que os jogadores é que devem fazer tudo pois afinal eu é que lhes pago o ordenado por gastar os meus poucos euritos num simples bilhete.
Pois bem sendo assim mais vale ficarem em casa ou irem ver a bola num café pois será a mesma coisa que ler um jornal enquanto se faz amor, mas mais barato pois continuam com os euritos no bolso e podem ficam descansados que os jogadores continuarão a receber o ordenado.
E todas estas palavras tristes para dizer que tenho saudades das noites em que nós (os adeptos e os jogadores) juntos nos transformávamos num gigante guardião do
INFERNO nunca permitindo a entrada de alguém que mudasse este sentimento...