Pensei que nunca mais voltaria a escrever sobre o Benfica. Pensei, na verdade, que o mal que podia fazer ao Benfica, com a escrita, era superior à dedicação e amor que lhe tenho.
Na verdade, desde miúdo que sinto o meu ateísmo como uma mentira, encenada com receio de afirmar que o Benfica é a minha verdadeira religião.
Condicionei todas as grandes decisões da minha vida ao Benfica e até tive o cuidado de escolher para partilhar a vida uma mulher que compreende o que é esta coisa que se sente.
É por isso que estou de volta, encarando esta minha participação neste blog, que está, infelizmente, no mau caminho, como uma arma.
Por circunstâncias que ora não discuto, fui convidado de António Salvador para o jogo da segunda mão, em Braga. Assim que o árbitro apitou para o final, fui de imediato confortado por uma série de bracarenses, que nada têm que ver com os criminosos que habitam nas tribunas de honra de outro estádio mais a sul. Saí, com mais dois amigos benfiquistas, perdi-me, propositadamente, e fiquei à porta da nossa bancada, sozinho e a chorar, à espera que o resto dos meus amigos fosse libertado da agonia em que, por certo, estavam. Foi a hora mais dura da minha vida. Muito mais porque, na verdade, houve centenas de adeptos do Braga que, vendo o estado em que me encontrava, me confortaram e tentaram amenizar a dor, quando o que eu queria era insultá-los... Isto durou o tempo que a polícia quis, considerando que fui expulso daquele local para que pudessem preparar o trabalho americano que se seguiu. Com a nossa rapaziada dentro da bancada e os telefonemas que me faziam de Lisboa, apercebi-me que a coisa, lá dentro, estava negra...
O que se seguiu a isto?
Um chorrilho de telefonemas, sms, mails, mensagem do facebook e, desconfio, tentativas de enviarem pombos correio na minha direcção, todas com um sentido: vinguemo-nos nos jogadores, treinadores e dirigentes. Não sabiam, mas estavam a pedir para nos vingarmos no Benfica...
Fiquei em, como disse António Guterres, confrontado com a maioria absoluta do Cavaco em 91, estado de choque.
Os mesmos que há um ano idolatravam o treinador e lambiam a peida ao director desportivo, andando com os jogadores ao colo, pediam, agora e depois de uma época decepcionante, mas a terceira melhor das últimas 17, sangue imediato, sem darem direito a que um gajo vivesse o seu luto em sossego?
Este é o meu Benfica?
A saga continuou. Os nossos adeptos e sócios cometeram um erro terrível: em vez de se recolherem num profundo silêncio, de reflexão e meditação, analisando, cada um, o que poderá fazer para que melhoremos, decidiram passar duas semanas a atirar postas de pescada para a opinião pública.
O pior ainda estava, no entanto, para vir: entre terça e quarta-feira, não houve alma que não se lembrasse que gostava de estar comigo em Dublin a beber um copo.
O que é mau, muito mau: depois do comportamento lamechas e choramingas de 90 % dos meus amigos, durante mais de 15 dias, quem não queria estar em Dublin com eles, era eu! E isto de ser amado, sem amar, não tem piada nenhuma.
Lá está: uma tempestade e uma crise, depuram o sistema...
Sempre pensei que estava amarrado a uma série de amigos, no que diz respeito ao Benfica. Mas não estou. Estou, isso sim, amarrado ao Benfica...
Tenho tentado passar uma mensagem, nas relações pessoais, que passará a ser a imagem do que aqui escreverei: o nosso inimigo ganhou muita coisa e ultrapassou-nos em importância internacional. Por isso mesmo, não estou com pachorra para aturar quem se quer lamentar. Dei início a um novo método de trabalho: a nossa função é ultrapassá-los. Só o conseguiremos com união, força, pensamento estratégico, capacidade de luta e sofrimento, visão a longo prazo e, sobretudo, se recuperarmos os valores que presidiram a nossa actuação nos primeiros 50 anos da nossa vida.
Não sei, no entanto, se estes sócios têm essa capacidade.
E quando aqui chego e me dirijo aos sócios, deixando de parte os dirigentes, tenho o objectivo bem estruturado: se fomos nós que elegemos Damásio e Azevedo, ainda somos capazes de fazer pior, muito pior. É disso que tenho medo...