quarta-feira, 2 de novembro de 2005

A geometria variável!

O Professor Lobo Vilela escreveu um dos livros que mais devia ser lido em Portugal: Do Sentido Cómico e Trágico da Vida. A páginas tantas, e como forma a diferenciar o ridículo do cómico, escreve: "Embora o ridículo seja a principal fonte de comicidade, pela imitação e pela caricatura, não deve identificar-se com o cómico porque há entre eles diferenças essenciais. Em primeiro lugar, o ridículo é involuntário, inconsciente, espontâneo, natural, ainda que pareça artificioso, ao passo que o cómico é voluntário, consciente, intencional, premeditado. Em segundo lugar, o riso é, para o ridículo, um castigo, ou melhor, uma agressão, porque o sujeito considera-se vítima de uma injustiça; para o cómico é o prémio ambicionado, a homenagem prestada ao talento histriónico."
Serve isto para expressar a dificuldade que tenho em perceber qualquer treinador que, em desespero, dispensa o homem que pensa o jogo, em detrimento de um homem de combate.
Se estudarmos as batalhas - de guerra, guerra mesmo -, nunca descobriremos uma única em que se dispensa o estratega e se opte pelo batalhador. Na verdade, ambos têm de marcar presença, mas nunca em substituição.
No futebol, o estratega tem de jogar SEMPRE. Seja em desespero de causa, seja a ganhar por 10-0. Não se pode, sob pena de coarctar a imaginação do passe impossível, abdicar, por um segundo, de o ver em campo. Seja parado, a andar, ou mesmo de bicicleta - o Maradona, por exemplo, devia jogar sempre, em qualquer equipa, em qualquer lado, em qualquer desporto.
Pellegrini opta por nunca tirar Riquelme. Mesmo quando não joga, assobia para o lado ou, no absurdo da posição, decide jogar 20 minutos a extremo. Sabe, em síntese, que Riquelme pode, a qualquer momento, devolver num momento de magia a paixão que os adeptos debitam nas bancadas. Koeman, ao invés, decidiu retirar da equipa aquele que pautava o jogo, distribuindo passes e inteligência ao acéfalo meio-campo benfiquista, colocando Mantorras.
Pellegrini, ei-lo de novo, foi rápido na resposta - simultâneo, até, devido à ligeireza demonstrada na substituição -: colocou um extremo de coração novo, prendeu Nélson durante 20 minutos mais - e Jose Mari já o havia feito durante 70 minutos...- e deu ordens ao meio-campo de combate (Josico, Sorin e o enorme Senna) para pressionar os, agora, isolados Petit e Manuel Fernandes, até à exaustão.
Koeman respondeu tarde. Já perdia por um a zero, mas ainda assim deu o braço a torcer: só voltou a criar perigo quando Assis entrou.
Agora, perguntam os caros leitores, o que é que a estratégia de um mágico tem a ver com o cómico e o ridículo? Tudo. Tudo mesmo. Se na ausência de um 10 - um vero 10 - o futebol tem algo de ridículo - mesmo quando se acerta -, os erros do 10, se tiver magia, trazem a comicidade de volta à vida. Sem passar pelo ridículo.
E o futebol, meus caros, também se pode resolver com um tiro do meio da rua, bem no centro da catedral - Wembley de seu nome -, mas a história preferirá, sempre, Savicevic a chapelar da lateral da Avenida da Liberdade.

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