terça-feira, 5 de agosto de 2014

Um dia direi ao meu filho: "era o Óscar + 10"


Quando comecei a ir à missa dominical, a minha santíssima trindade era composta por dois bigodes (Bento e Carlão) e um calmeirão loiro. “Não joga puto”, dizia o meu pai. Longe de compreender todas as expressões que os adultos utilizavam, eu concordava. Concordava no sentido em que “não jogar puto” significaria não jogar como uma criança que tudo teria ainda por aprender. Para o meu pai e demais companheiros de bancada, o “Mánika” era o “tosco”, para mim era o tipo que (na pior das hipóteses) molhava a sopa jogo-sim-jogo-não.

O meu pai e os seus amigos confrontavam-se então com a quebra de rendimento do Nené, mas nem queriam ouvir falar na reforma da camisola 7. Os resmungões da geração acima, para quem todas as exibições do Benfica pos-Eusébio eram miseráveis, agitavam-se de imediato: “não jogam nada, nem um, nem outro”. E assim, entre uns e outros, aprendi duas coisas fundamentais e por vezes contraditórias:
1) um avançado é os golos que marca
2) os avançados do Benfica só são bons quando penduram as botas ou se vão embora do Clube



De lá para cá o Benfica teve Magnusson, Rui Águas, Vata, Iuran, Nuno Gomes, Brian Deane, Van Hooijdonk, João Tomás, Mantorras. Todos eles tiveram a sua época de glória, nenhum conseguiu dar real sequência. Uns por incapacidade própria, outros porque foram imediatamente transferidos ou, pasme-se, dispensados. A excepção foi o rapaz paraguaio que 22 anos depois recuperou a camisola 7 para a frente de ataque. E como o seu antecessor, por mais golos que marcasse, viveu uma constante relação de amor-ódio com as bancadas. Mas se Nené vivia com a sombra de outros goleadores, só recentemente se pode dizer que Cardozo teve concorrência à altura.

Nos últimos meses o paraguaio andou desaparecido e passámos mais tempo a discutir hérnias que golos. E 199 golos depois (172 oficiais) ainda há muitos a soltar um “até que enfim”. Mas em pouco tempo, como sucedeu com Nené, Isaías e tantos outros, a sua saudade será consensual.

Na dificuldade em destacar um golo de Cardozo - seja pelo recorte técnico (United na Luz, Taça da Liga em Alvalade, etc) ou pela importância desportiva (Twente fora, Fenerbache
na Luz, Porto na Luz para a Taça da Liga, etc) – fica a última vez que gritámos um golo dele.

ps- Na verdade Cardozo viria ainda a bisar frente ao Rio Ave (algo que todos nos vamso esquecendo, de tão marcante que foi aquele hat-trick para a Taça de Portugal). Aqui ficam os dois últimos golos de Tacuara, ambos de grande penalidade.




2 comentários:

Nau disse...

Uma despedida muito digna, do melhor que tenho visto e ouvido!Comoveu-me, o nosso Taquara.
As maiores felicidades, Cardozo! Nunca esqueceremos o nosso grande goleador.

Capitão Sargento disse...

Caro Astutillo, bem podes dizê-lo....muito golo marcou este senhor, mas é díficil de agradar a todos, ou porque não corria, ou porque marcava poucos golos de cabeça, ou usava pouco o pé direito, ou porque falhava penaltys, ou porque não defendia, ou porque as meias não estavam na posição correcta! O certo é que já há muito que não tínhamos um ponta de lança digno desse nome.
Continuo desconfiado sobre os problemas nas costas que obrigou a várias deslocações á Alemanha, a razia no balneário continua, e finalmente o Jesus conseguiu o que queria.
Quanto á actual pré-temporada, não é de todo animadora e a venda e revenda de jogadores tem destas coisas, não se cria uma equipa num mês!
Até 31 de Agosto muita coisa vai acontecer, e só com um plantel fechado poderá o treinador impôr as suas ideias!
Não perdendo o fio á meada.....grande Cardozo!